CRÔNICAS

ROSEIRAL

Edna Lautert

Eu sempre comparei o coração humano a uma barca. Ora ancorada em um lugar, em uma margem do rio, ora em outro. E cada sentimento a um passageiro. E, somando todos os passageiros, encontraríamos o amor verdadeiro, que na vida real tem a face de cada um.
E cada desavença familiar a uma barca sem maromba, flutuando nas águas, sem direção. Como uma pessoa sem família, a mercê do tempo, do acaso, ou do descaso das outras pessoas.
E cada ambiente de trabalho a uma árvore, emoldurando os rios e riachos que serão transpostos. Os funcionários expostos a grandes ventanias e mudança de estação, dançando ao sabor do tempo e ao prazer dos temporais, ou do lenhador. Os desafios são os ventos, que arrancam apenas algumas folhas, e a projetam pelo ar. A ambição e a concorrência desleal como partes da terra das ribanceiras, que se desprendem do solo e arrastam-se junto com as marés, deixando expostas as raízes, que podem reagir e sobreviver, ou deixar-se levar pela correnteza.
Fora do ambiente de trabalho, e da família, viriam as relações interpessoais, que podem ser flores, campos, cachoeiras, ou uma série de elementos nessa grande floresta tropical que é a vida e as aventuras que ela nos propicia.
Fora da análise poética, a realidade humana é um porto: a gente sai da projeção e entra para a realização. Busca enfrentar os desafios, pagar tributos, render sacrifícios, prestar contas a Deus e, ainda, conseguir um agradecimento, em um mundo onde as pessoas valorizam mais a ganância, deslealdade, preconceito e falta de ética. E onde “matar um leão por dia” é contra a lei, mesmo que seja apenas na concepção ilusória de quem supera um desafio.

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